O Mito que sangrou o Sertão: Os 128 Anos de Virgulino Ferreira da Silva

Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró @ihgmossoro

Por Geraldo Maia do Nascimento, Sócio-Fundador do IHGM, 04 de junho de 2026.

Neste 4 de junho de 2026, completam-se exatos 128 anos do nascimento de Virgulino Ferreira da Silva, o homem que o mundo viria a conhecer pela alcunha de Lampião. Nascido em 1898 nas terras secas de Serra Talhada, em Pernambuco, o menino que outrora manejava o almocreve e a enxada transformou-se na figura central da maior epopeia de sangue, pólvora e controvérsia da história do Norte e Nordeste do Brasil. Mais de um século após o seu choro inicial, a sua sombra ainda se projeta sobre a caatinga, dividida entre a romantização literária e a crua realidade dos arquivos policiais.

Para a historiografia contemporânea e para as famílias daqueles que sentiram o peso de seu punhal, não há espaço para o lirismo que o cordel muitas vezes pintou. Lampião não foi um Robin Hood das caatingas, tampouco um herói revolucionário fardado de couro. A imagem do “Rei do Cangaço”, adornada com moedas de ouro e chapéus ricamente trabalhados, esconde o pragmatismo de um criminoso impiedoso, cujas ações eram pautadas pelo saque, pela extorsão e por uma violência desmedida que vitimou, majoritariamente, os próprios sertanejos desamparados.

O cangaço, antes de ser um movimento de contestação social — como algumas correntes sociológicas do século XX tentaram sugerir —, era uma empresa de sobrevivência e poder pelo terror. Virgulino era o CEO dessa engrenagem de barbárie. Sob o seu comando, bandos cruzavam as divisas de sete estados nordestinos espalhando o medo. Cidades inteiras eram sitiadas, comércios saqueados, e fazendeiros eram obrigados a pagar “impostos” de guerra para não verem suas propriedades incineradas e suas famílias passadas ao fio da faca.

A longevidade do bando de Lampião, que desafiou as forças volantes por quase duas décadas, não se deveu a uma suposta benevolência popular, mas sim a uma complexa rede de coação e conveniência. O cangaceiro soube, como poucos, transitar entre a opressão aos pequenos e as alianças espúrias com os grandes. Coiteiros por medo ou por ganância, além de coronéis latifundiários que utilizavam o bando como braço armado para suas próprias vendetas políticas, como aconteceu no caso do ataque de Massilon a Apodi, em maio de 1927, garantiu a Lampião a munição e o refúgio necessários para escapar do cerco legal.

A passagem do bando por estados como a Paraíba, o Ceará, Alagoas, Sergipe e o Rio Grande do Norte — onde Mossoró, em 1927, escreveu uma das páginas mais altivas de resistência ao escorraçar o bando à bala — deixou um rastro de traumas coletivos que o tempo não foi capaz de apagar. O estupro de mulheres, a tortura de prisioneiros, a mutilação de desafetos e o fuzilamento de praças das forças públicas eram práticas corriqueiras, documentadas não apenas por jornais da época, mas pelas marcas profundas na memória oral das vilas sertanejas.

Celebrar os 128 anos de nascimento de Virgulino não significa, de forma alguma, homenagear o crime. Significa, sim, lançar luz sobre os mecanismos que permitiram que a barbárie se institucionalizasse no interior do país. Significa lembrar que, por trás do magnetismo estético do cangaço, que hoje ilustra o artesanato e o turismo regional, existiu um homem de carne, osso e crueldade, responsável por órfãos e viúvas cujos nomes a história oficial muitas vezes esqueceu.

Lampião encontrou seu fim na Grota de Angico, em 1938, mas o debate sobre seu legado permanece vivo. Ao completarmos quase treze décadas de seu nascimento, a imprensa e a sociedade têm o dever de separar a mística do fato: Virgulino Ferreira foi um reflexo de um Brasil arcaico, um criminoso que fez do terror a sua lei e do sertão o seu tribunal de sangue.

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